Entrevista com Bruno Oliveira da Nuvem Negra - Underground Design - Loja online de Cd, K7, Vinil e Patch

SAUDAÇÕES LIBERTINAS!

O underground não é só música, a cena também é composta por ilustradores, técnicos de luz, artesãos, artistas performáticos, entre outras áreas afins. O Design não fica de fora desse universo; a ilustração de um álbum por melhor que seja, pode ser prejudicada por uma má diagramação, um cartaz de show pode ficar confuso ou poluído demais se não for montado por alguém que entenda do assunto. Para falar sobre a importância do design na cena underground, conversamos com Bruno Oliveira (Homo Sine Rege, guitarrista da Cantus Infame), fundador da Nuvem Negra – Underground Design. 

Entrevista realizada em Dezembro de 2016 por Gustavo Madruga.

 

Gustavo Madruga (Cachorro da Duença) e Bruno Oliveira (Nuvem Negra – Underground Design)

 

Projeto da gráfico realizado pela Nuvem Negra – Underground Design para Cachorro da Duença, pela Libertinus Records.

 

Você já trabalha com design há mais de 10 anos, mas como você começou a trabalhar com o público underground? Foi antes da própria Nuvem Negra existir?

NN: Sim, a proposta da Nuvem Negra é algo recente, já desenvolvi outros trabalhos antes assinando com outros nomes. Eu me interesso por artes gráficas (não só gráficas) desde antes de começar a trabalhar profissionalmente na área, e além de gostar do som underground (Rock/Punk/Metal), as artes das capas dos álbuns foi algo que sempre me atraiu, considero obras de arte, passava horas viajando nas capas, lendo as informações do encarte, enquanto ouvia o som, não só as capas, mas também gostava (ainda gosto) muito de observar as artes dos zines, flyers e cartazes. O interesse pessoal pela área das artes gráficas me fez querer estudar e logo depois comecei a trabalhar na área. A partir desse conhecimento e paralelo ao meu trabalho profissional (comercial), consegui colocar em prática uma vontade que eu já tinha a muito tempo, fazer artes para o “submundo” da música. Surgiram então oportunidades de criar artes para cartazes, flyers, logos, diagramação de zines e capas de demo tapes para bandas de amigos e produtores.

Nos fale um pouco sobre a Nuvem Negra. Como surgiu a ideia? Qual a sua proposta?

NN: A Nuvem Negra é a continuação de um trabalho que eu já venho desenvolvendo a um tempo, é a mesma ideia com outro nome. Comecei a assinar com este nome no final de 2015, quando Eric Rossini do selo e produtora Resistência Underground começou a produzir eventos na cidade e eu me propus a contribuir criando a identidade visual, cartazes e flyers dos eventos, indo além, ele começou a lançar bandas e me convidou para desenvolver os projetos gráficos delas. Antes disso a demanda de criação era menor, fazia artes esporadicamente e assinava com outros nomes ou nem assinava. A Nuvem Negra é mais uma forma que eu tenho de contribuir com o underground, desenvolvendo projetos gráficos para bandas e produtores.

Entre os seus trabalhos estão diversos cartazes de eventos, capas de K7, demos, cds e um vinil 7’’. Como é trabalhar com uma variedade tão grande de formatos? Existe algum de sua preferência enquanto design?
NN: Eu não tenho uma preferência, porque entendo que cada formato tem o seu papel, importância e função. Para mim é sempre prazeroso e desafiador trabalhar com vários formatos, porque cada um tem o seu nível de complexidade e método de criação, essa variedade é que faz com que a coisa não seja repetitiva, limitada ou padronizada, o que seria muito monótono para mim, a diversidade é mais interessante.

 

Alguns projetos desenvolvidos pela Nuvem Negra.

 

Existe algum trabalho “preferido” ou que você tenha um carinho diferente por ter realizado?

NN: Sinceramente, não tenho um preferido, cada projeto desenvolvido eu dei o meu melhor, me dediquei da mesma forma, cada um tem a sua particularidade, identidade, conceito, trabalhei em parceria com grandes ilustradores, não tenho como comparar ou selecionar. Fiquei satisfeito com todos os trabalhos até agora.

Infelizmente muitas bandas e produtores de eventos não se preocupam com um bom trabalho de design, seja na capa de um material ou no cartaz de um evento. Qual é a importância do design para o underground numa época em que qualquer um se mete a mexer em programas de edição?

NN: O design gráfico é importante não só para o underground, mas para o mundo em geral, e uma de suas muitas importâncias é facilitar a comunicação. O underground é um movimento cultural e artístico, tem identidade, se expressa através da música, estética, símbolos, ideologias, e isso é se comunicar, é passar um sentimento ou ideia, mas para isso é preciso saber se comunicar para poder passar melhor suas ideias e conceitos. Com o surgimento das novas tecnologias e ferramentas digitais, como os softwares de edição de imagens e vetores, o acesso a essa área se tornou mais fácil, gerando uma banalização desse conhecimento. Muita gente pode saber mexer nesses programas, mas poucos conhecem os fundamentos básicos do design gráfico ou tem a sensibilidade artística de compreender e identificar as linguagens gráficas. Essa banalização do design tem consequências e vem gerando uma grande perda na identidade e desvalorização do caráter plástico/artístico das capas dos discos e cartazes. A estética das bandas está ficando tudo muito digital, artificial, padrão, sem conceito, parece que tudo é feito pela mesma pessoa e para a mesma banda, fora os graves problemas de ergonomia da informação, erros grotescos nas informações de encartes e cartazes, artes que você não consegue ler nem entender. Em contrapartida, ainda vejo trabalhos excelentes de design gráfico, algumas bandas e artistas ainda mantem a estética com a essência analógica do underground. Quem gosta dessa área e a pratica é importante que conheça os fundamentos do design gráfico e suas linguagens, para desenvolver um bom projeto e conseguir transmitir a identidade e ideia da banda/evento, sem perder as características e nem a essência do underground.

 

Cartaz para divulgação de evento realizado pela Resistência Underground em Caruaru.

 

Você atua no underground em duas esferas, como designer e como guitarrista na horda Cantus Infame. Existe algum eixo conector entre essas duas expressões artísticas que você produz ou Bruno Oliveira e Homo Sine Rege são “artistas diferentes”?

NN: Acho que atuo também em outras esferas que vem antes do design e banda, eu também sou público e consumidor, eu vivo o underground. Todas essas esferas fazem parte do mesmo contexto, utilizo dessas várias formas para contribuir com o mesmo ideal. Particularmente não tenho problemas de bipolaridade ou distúrbio de personalidade, eu crio arte, não personagens, apenas uso um codinome/pseudônimo na banda por uma questão de expor menos a minha identidade, mas a personalidade é a mesma, não existe diferença entre um e outro.

Já que falamos da Cantus Infame, é impossível não perguntar nada sobre a horda. Quais os planos para 2017? Podemos esperar um novo material com a nova formação?

NN: Estamos com uma nova formação, ano passado (2016) convidamos Thiago Impuro da horda Ímpios para assumir a voz, fizemos uma apresentação no Pvtridvs Vox Ritual em Campina Grande – PB e agora estamos numa fase de criação, compondo novos sons para podermos lançar mais um registro no submundo, mas ainda sem previsão.

Como alguma banda ou produtor interessados na sua arte pode entrar em contato? Existe algum estilo ou tipo de banda que você se recusa a trabalhar?

NN: A Nuvem Negra tem uma página no Facebook e também o email nuvemdesign@hotmail.com. Sim, existe vários tipos que eu não trabalho, o meu interesse é apenas com bandas do underground que tenham a verdadeira essência Punk/Metal, marginal, subversivo, transgressor, como sempre foi e tem que ser. Bandas de boy, modistas, reaças, fascistas, machistas, homofóbicos, racistas, nacionalistas, gospel, eu quero que se fodam e morram! Também não me interesso por bandas de metal melódico ou moderno.

 

Nuvem Negra

Nuvem Negra – Underground Design

 

Obrigado pela entrevista, deixe aqui sua mensagem para os leitores da Libertinus :

NN: Eu que agradeço pelo espaço e oportunidade de falarmos um pouco sobre arte/design no underground, assunto este que precisa ser mais discutido e valorizado nesse meio. Aos leitores, continuem apoiando a cena, por mais que as vezes ela pareça um circo, ou esteja infiltrada por imbecis, resistam, lutem e defendam ela! Procurem ler mais, se informar, frequentem os eventos, comprem material das bandas e distros, não seja apenas consumidor mas produza também, todo esse movimento só depende de nós para que aconteça e seja cada vez mais forte. “Play it loud, in underground we trust!

 

 

 

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